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Paixão Côrtes:
Me dá um mate

 

21/01/2012 11:24:40
INVENTÁRIO DA SAUDADE
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Rol de bens a inventariar:
20 quadras de campo,
de baixa qualidade;
casa, galpão e mangueiras,
muito antigos e mal conservados;
850 reses de gado geral;
22 cavalos de serviço;
60 capões de consumo;
4 cachorros ovelheiros.

E a memória
de seis sofridas gerações...
com quem ficará?

Com quem ficará?

Todo o campo se divide:
casa, mangueira e galpão...
O gado é “ponta cortada”...
e o bem maior não é nada,
pra o conceito do inventário.

O bem maior são as almas
e as memórias já passadas,
que não conhecem partilhas
e que vivem encravadas
e perdidas pelas sombras,
pelos cantos dos galpões...
e nas sangas e nas grotas
e nas curvas das picadas...
e assobiando pelos ventos,
que cortam as invernadas
compartindo solidões...

E essas almas esquecidas
não reconhecem cartórios
nem os timbres nem os selos,
que conferem propriedade...

E, por certo, nem os zelos
que a ganância distribui...
As almas, por certo, entendem
quem sente e vê seu passado
não apenas como um bem,
que se vende ou é comprado...
Mas, sim,
como um sonho herdado,
que nem se estima valor.

O que pra uns é mercado,
que engorda os bois e as contas,
pra outros é casa e vida;
e, por certo, guarda a lida,
as esperanças e os sonhos
das passadas gerações.

O que pra uns são aguadas,
que dão de beber ao gado,
pra outros é porto e banho
nas histórias dos verões.
E as várzeas desmerecidas,
pelas mortes das enchentes,
são a própria alma dos campos
que revive o que matou...

O que pra muitos é ruína
de um fortim que não tem luxo,
que não comporta confortos
nem móveis sofisticados,
pra outros é casa e história,
que contam as tantas vidas
que por ali já cruzaram...

A voz das avós, guardada,
no ranger das dobradiças
das muitas portas antigas...
que o formal de uma partilha
sequer atribui valor...

Nenhum juiz ou cartório
pode melhor entender
o que as almas das estâncias
querem e podem contar:
de forno e pão das avós...
de laço e doma dos pais...
dos apartes ancestrais
e tropas no Camaquã...
dos bisavôs boleadores,
caçando boiada alçada
das gadarias baguais...

Por certo, as vidas passadas
são veladas testemunhas
que bem poucos ouvirão...
E nenhum advogado
pedirá suas palavras
ou mesmo seus bons conselhos
na partilha que há de vir...

Quem sabe, um dia, a tristeza
inventarie os recuerdos
no cartório das saudades;
e a justiça e a verdade
venham meter o focinho
no buçal da realidade...

E que as almas das estâncias
bradem contra as injustiças
e as misérias ambiciosas,
que profanam sem pesar...

E, quem sabe, quando a vida
abandonar as retinas
dos muitos olhos sofridos,
que perderam seu lugar,
os juízes do universo
promulguem votos sublimes,
exilando suas almas
a sempre errar e vagar...

E seremos a saudade
e as vozes das dobradiças...
E seremos a memória
e o calor de nosso lar...

Seremos o que não cabe
no formal de uma partilha...
Seremos alma de estância:
outros poderão contar!

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  Autor: Guilherme Collares
Poesia enviada Por: Luiz Carlos Lins - Curitiba / PR
  Observações:

Poesia integrante da 14ª Quadra da Sesmaria da Poesia Gaúcha, de Osório/RS,
Set/2009, com a interpretação de Francisco Azambuja e o amadrinhamento de
Guilherme Collares.


 
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