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Nasceu um Bugio

 

25/07/2010 13:24:02
HISTÓRIA DO JUCA
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Era a estância mais linda
margeando o Rio Uruguai,
que herdara do velho pai,
ainda na sua infância;
mas o pai, com arrogância,
fez o Juca prometer
que nunca ia vender
aquela bonita estância.

Ajoelhado, rente à cama,
com o olhar pesaroso,
um soluço teimoso
lhe fez chorar, sem querer:
- Papai, enquanto eu viver
eu não farei extravagância
e vou conservar a estância,
até o dia em que eu morrer.

E, devagar, passou-se os anos
na lida bruta, na doma,
e o ressonar da cordeona
já era convite pra farra;
mas nunca falta amarra
nesta querência patrícia,
e a china que tem malícia
sabe pialar de cucharra.

Certa feita voltou ao rancho,
na garupa do dia;
e junto consigo trazia
alguém do seu agrado;
na garupa do tostado
uma china laripona,
china com ares de dona,
crioula lá do povoado.

E ali foram vivendo,
seguindo a mesma trilha;
e no que surgiu a família
foi amanunciando debaixo
eguadas do mesmo tacho,
que não se compra na venda;
para ajudar na fazenda:
uma fêmea e quatro machos.

Nas horas matutinas
saía pra recorrida
já ensinando, na lida,
o piazedo, ainda novo.
Mas a china, com retovo,
manhosa e caborteira,
alarifa e retrincheira,
queria voltar pra o povo.

Dizia o Juca: - nem por brinquedo
eu não troco este rincão pelo povo;
será preciso retovo,
e o dinheiro se vai...
E a prece do meu pai,
que fez com arrogância,
para conservar a estância
das margens do Uruguai.

Dizia a china: que nada! Não adianta!
Qualquer dia eu vou embora;
os meus filhos, aqui fora,
só aprendem a ser domador:
profissão sem valor;
o estudo é muito mais seguro;
e tu não vê que no futuro
eles podem ser até dotor?

- Tá certo o que tu dizes, china.
E aqui tu explicas:
os filhos vão e tu fica;
e a jura eu não desmancho;
e como eu fico ancho
na volta da campereada,
quando encontro tu, de cuia cevada,
sentadita na porta do rancho!

Mas tanto a china amola,
que o Juca não resiste.
Concordando, mui triste,
na brasa acendeu o pito;
e, despois, quase num grito:
- mulher, tu tá de arte!
Agarra as tuas cria e parte!
E aqui, no más, eu moro solito!

E ali, do oitão do rancho,
viu partir a tropa miúda;
depois, a china fachuda.
- Caramba! Barbaridade!
Como eu vou sentir saudades
deste piazote miúdo!
Tem que ir para o estudo,
e se vão morar na cidade!

A mão sobre a cabeça,
olhando, triste, a partida,
viu as sombras compridas
cobrindo as cercanias;
e já era no fim do dia,
mal se enxergava o campo:
acenando um lenço branco,
e alguém que partia.

Depois, a noite, escura
como a alma do injusto;
e o uivar triste do cusco
lhe deixou mais aborrecido;
murmurava no ouvido
aqueles lábios molhados,
e aquele corpo delgado,
e aqueles cabelos compridos...

O vento – uma ave grande –
pelas quinchas assobiava,
parece que se aninhava
na copa dos cinamomos.
Dormiu, mas viu em sonho,
cravado em sua retina,
o corpo esbelto da china
nos braços de um outro dono.

Assim foi passando os anos;
o rancho semi-tapera.
E chegou a primavera,
as flores e os seus mistérios.
O Juca estava mui triste;
e era dia de finados;
montou o pingo tostado
e foi até o cemitério.

Apeia, em silêncio,
e dá uma olhada pra o céu.
De manso, tirou o chapéu,
e entre as cruzes se vai;
e sente as lágrimas que caem
pesadas, gotejantes.
E, depois, parou, ali adiante,
em frente ao túmulo do seu pai.

Tremendo, cambaleante,
acendeu a vela santa,
e sentiu na garganta
o primito da amargura:
- Velho, eu vim à tua sepultura;
lembrei-me do teu pedido.
Mas, papai, como eu tenho sofrido
para cumprir aquela jura!

Cumpro com sacrifício
teu pedido, velho santo;
não vendi o nosso campo,
que me destes por herança.
E quando a saudade me avança,
eu saio pela colina
curtir as saudades da china
e chorar pelas crianças.

Deixo eu teu sepulcro
minhas lágrimas gaudérias;
não vim chorar misérias
frente à tua sepultura;
eu quero que me ajudes, das alturas,
a encontrar outra prenda
que goste da nossa fazenda
e respeite a minha jura!

Obs.: para ouvires Ivan Taborda declamando História do Juca,
pausa a música da página principal.

 

 

 

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  Autor: Ivan Taborda
Poesia enviada Por: Bombacha Larga - Brasília / DF
  Observações:

Poesia publicada em atendimento ao pedido do prezado visitante Adílio, de Concórdia-SC.


 
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21/06/2014 23:48:46 Alvadir Poster de Ávila - Joaçaba / SC - Brasil
Que maravilha de poesia, mesmo só ouvindo a declamação parece que a gente esta vendo as cenas acontecendo ao vivo. O quanto eu procurei por essa poezia e só agora encontrei... Obrigado pela postagem.
Sítio: *****
30/04/2014 22:01:58 antoninho fracaro - blumenau / SC - Brasil
Há tenpo estou procurando esta poesia, para ouvir. Gosto muito dela, pois é muito linda.
Sítio: *****
22/04/2014 10:23:46 Valdecir Moura da Motta - Cachoeirinha / RS - Brasil
Essa poesia é a mais linda que ja ouvi, meu pai ensinou para meu irmão mais velho, eu aprendi e agora estou ensinando para meu filho...muito linda mesmo.
Sítio: *****
17/01/2014 22:23:13 GILMAR RODRIGUES - BLUMENAU / SC - Brasil
eu tinha certeza que te encontraria poesia mais linda do Brasil...que meu avô contava quando eu era criança...
Sítio: *****
30/03/2013 05:21:54 JOSE RAMAO PEREIRA DA CUNHA - SANTO ANTONIO DAS MISSOES / RS - Brasil
HÁ MUITO TEMPO EU PROCURAVA ESSA POESIA,OBRA DO SAUDOSO SANTOANTONIENSE E PAYADOR JOSÉ DE FREITAS SARATE!
Sítio: *****
31/12/2012 11:18:30 José Itajaú Oleques Teixeira - Brasília / DF - Brasil
Prezado Tadeu. O sítio BL agradece as tuas honrosas visitas e a comunicação encaminhada a este espaço cultural tradicionalista gaúcho brasileiro. Em resposta, informamos-te que para ouvires a poesia História do Juca, de Ivan Taborda, é necessário que tenhas na máquina o aplicativo Windows Media Player. Com os votos de muita saúde e felicidades no Ano Novo, segue o nosso cinchado quebracostelas a esse prezado Vivente! Atenciosamente, BOMBACHA LARGA: na luta pela preservação das autênticas Tradições dos Gaúchos Sul-brasileiros!
Sítio: http://www.bombachalarga.org
27/12/2012 12:10:52 TADEU DE SA - SOROCABA / SP - Brasil
COMO OUVIR POESIA HISTÓRIA DO JUCA?
Sítio: *****
29/10/2012 22:44:03 romiro padilha - caçador / SC - Brasil
Eu acho muito linda essa poesia. Eu a declamo nas tertúlias k acontece na cidade,...
Sítio: http:/cidade/
06/08/2012 21:30:56 luiz lewinski - caçador / SC - Brasil
É um dos poemas mais lindos que já ouvi.
Sítio: *****
10/06/2012 09:21:01 Vanderlei - Campo Belo / MG - Brasil
Poesia magnífica. Tão boa quanto muitas outras do sul.
Sítio: *****
08/05/2012 10:56:34 Luiz Carlos Castoldi - São José do Herval / RS - Brasil
A poesia nos remete a uma emoção ímpar. Dá gosto em ouvir esta brilhante poesia. Parabéns!
Sítio: *****
26/04/2012 20:14:39 marcos nascimento - santa rosa / RS - Brasil
Há muito tempo que eu procurava esta poesia.
Sítio: *****
13/10/2011 22:04:55 joao gabriel - cruz alta / RS - Brasil
QUANTO TEMPO PROCUREI ESTA BAITA POESIA!
Sítio: *****
15/04/2011 17:28:10 LURDES - JOAÇABA / SC - Brasil
LETRA E DECLAMAÇÃO MUI LINDA. SÓ PRA QUEM VIVEU NO INTERIOR PRA ENTENDER O QUE DIZ ESSA LETRA.
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