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Walther Morais:
Alma de Chamamé

 

09/02/2008 10:35:50
ESSE TAL GURI DE RUA
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No campo não tem guri de rua,
não porque o campo não tenha rua,
mas porque, no campo, todo guri,
por mais humilde que seja,
tem, na janela do rancho,
horizontes pra sonhar...

Guri de campo,

mesmo de pés descalços,
pisa em estrelas nas sangas,
nas noites de lua cheia,
quando brinca com os astros
perseguindo os pirilampos.

E, mesmo sem rua,
sabe todos os atalhos
dos caminhos que escondem
as auroras nas amoras
e os ocasos nas pitangas.

Sabe a época das messes,
quando o sol doura as laranjas,
os melões e as bergamotas
e o mel das lechiguanas
amadurece de luz.

Guri de campo
se molda às necessidades,
aceita as penas da vida
sem contestar o destino,
porque sabe que o campo
possui riquezas tamanhas
pra quem souber ser guri.

Por mais rota a bombachinha,
desbotada, remendada,
guri de campo não liga
pra essa tal de vaidade
que leva o piá de cidade
a cometer desatinos...

E, depois, guri campeiro
vive bem com seus avios,
linha de mão e espinhel...
Pois a roupa pouco importa
quando o mundo abre as portas
pra os olhos vestirem céu.

Nem todo guri de campo
tem um petiço baldoso
para correr pela estância.
Porém, não há guri de campanha
que não tenha um cachorro,
porque, guri, sem cachorro,
no campo, não é guri.

Na cidade sim,

os guris se extraviam
porque ninguém se preocupa
com quem não seja seu filho,
porque ninguém possui tempo
pra doar um segundo
de amor a quem precisa...

E tanto guri se perde
pelas ruas do destino
por falta de um afago,
pela ausência de um beijo,
pela carência de amor.

Guri de campo, não...
dificilmente se perde.
E se acaso ficar órfão
como tantos por aí...
o guri procura o campo
e o campo adota o guri.

A cidade, sim...
A cidade é cruel
no que exibe nas vitrinas
e depois nega ao guri.


A cidade fere no que engana...
Judia no que promete...
Exibe exuberâncias
e, depois, deixa a infância
sem ter sonhos pra sonhar.

No campo, ah, no campo,
guri é dono do açude,
é senhor dos lambaris,
e em cada salso chorão
tem um castelo secreto,
e, pela beira do rio,
sabe todos os segredos
dos jundiás e das piavas.

O campo nunca promete
encantos que não contém.
O campo é rude e, às vezes, dói...


O campo é firme
nos limites que impõe...
Porque, guri, é guri
e aí se forja o homem.

E porque o campo acolhe
tudo aquilo que procria;

no campo não se contempla
esse tal guri de rua!

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  Autor: Vaine Darde
Poesia enviada Por: José Itajaú Oleques Teixeira - Guará / DF
  Observações: Se o atual sistema não pensasse apenas nas vantagens econômicas (financeiras), os famigerados e teóricos projetos do Tradicionalismo Gaúcho e das ONGs, que embolsam rios de dinheiro público, já teriam realizado, na prática, a inclusão de crianças carentes, por meio da cultura regional gaúcha brasileira, tendo por base os princípios morais dos interioranos sul-rio-grandenses e as tradições campeiras da Terra do Guris de Rua. Entretanto, sabemos todos que os interesses que gravitam em torno dessa crítica questão social giram, apenas, em torno do voto e dos vultuosos locupletamentos, indevidos e criminosos, por parte daqueles que se utilizam de tema tão importante com fins espúrios e nada éticos... Não há qualquer dúvida que projetos envolvendo a cultura regional gaúcha (a verdadeira, não essa que o mercado - e seus aliados - impõe aos incautos) levaria dignidade, auto-estima, cidadania a um grande número de crianças que futuro algum terão neste sistema perverso, a não ser o de elevar as estatísticas do falido e corrupto sistema prisional brasileiro. Pobres guris de rua... Até quando?

 
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31/10/2009 00:26:12 paulo tomaz - bagé / RS - Brasil
Gostei da letra do Guri. Parabéns! Ótimo! Não tive sorte; morava na campanha e o cavalo me esfacelou o rosto. Tchau!
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