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Jayme Caetano Braun:
Negrinho do Pastoreio
 

 

Buenas, Vivente! O sítio Bombacha Larga agradece a tua honrosa visita, reafirmando o seu propósito de seguir lutando pela preservação das autênticas tradições do Povo Gaúcho Sul-brasileiro! Pois como asseverou o Patrono do Tradicionalismo, João Cezimbra Jacques, "povo sem tradição é como uma árvore sem raízes". Sejas bem-vindo, chê!
 

ATENÇÃO! Prezados visitantes! O sítio Bombacha Larga informa que está, desde 30 de janeiro de 2007, reprisando as matérias publicadas anteriormente. Saudações Tradicionalistas e um quebra-costelas cinchado a todos!

20/08/2005 06:20:49
NEGRINHO DO PASTOREIO!
 
Negrinho do Pastoreio: uma lenda genuinamente sul-rio-grandense!
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- Arreda dai, guacho! - e a velha Claudina, empurrando o guri que se aquecia junto ao fogão, atirou dois grandes nacos de carne para a panela do fervido. O guri, com o safanão, foi topar na negra Afonsina, fazendo-lhe cair da mão a faca que descascava batatas. Temendo maiores perigos, Vicentinho, encolhido, foi encostar-se à janelinha dos fundos, e ali ficou quieto. Àquela hora, quase a do jantar, a cozinha da estância era para ele um tormento, porque recebia por junto, de todos os serviçais ali reunidos, os maus tratos que durante o dia só de um ou outro lhe caiam em cima. A velha Claudina, lidando no fogão, era um perigo terrível: saiam-lhe das mãos os tapas tão frequentes e duros como os palavrões da boca. A negra Afonsina esganava-o por qualquer coisa e toda a cambada de crioulinhas e crioulas tratava-o mal. Com o rosto colado aos vidros da janela, olhava a tarde que ia morrendo. Andava fazendo um inverno feio. Chuvaradas de dias e semanas encharcavam os campos, e o céu cinzento derretia-se em aguaceiros e garoas. Ao morrer do dia, faixas vermelhas cintavam o horizonte, raras estrelas piscavam depois da noite quieta, e de manhã uma luz muito branca chispava nas várzeas, nos pedaços de água da enchente. E a friagem ia crescendo, até cair nas geadas que branquejavam o campo todo. O guri, encolhido, olhava a tarde curta de inverno. Uma névoa tênue escurecia os matos e as coxilhas. No frio do silêncio, berros tristes de reses rolavam de quando em quando. Tudo parecia morto de frio, lá fora; só o zunido longo do minuano chorava, uivando. Das árvores escuras, que o vento açoitava, o guri sentia vir para ele uma tristeza infinda... Que frio ia fazer... As suas perninhas finas, o seu pescocinho esgalgado, arrepiavam-se antecipadamente, porque pobre é assim: sente frio duas vezes. E o guri era pobre como anu, que nem ninho tem. Pobre de coisas e feições; não tinha nada de seu. Sem uma criatura que lhe quisesse bem, era como se seus ombrozinhos fracos aguentassem sobre sí todo o peso e a maldade do mundo. Tinha ficado órfão desde a revolução. Logo no começo o pai fora pelejar e, duas vezes, correu a notícia de sua morte, duas vezes desmentida. No rancho, conforme ia passando o tempo, a penúria aumentava. A mãe trabalhava todo o dia, mas, coitada, que ia fazer? E a tristeza e a miséria cresciam. Por fim, só o mate doce com o milho verde os alimentavam; e depois, até o milho e o açúcar escasseavam. Terminada a revolução, o pai não apareceu, sem que viesse também notícia de sua morte, ninguém sabia dele. Perdera-se... extraviara-se como tantos outros, como os gravetos que a água solta da enchente, leva e espalha pelo campo. De repente, a mãe morrera, numa tarde muito linda, em que os bem-te-vis cantavam de alegria nos cinamomos em frente ao rancho. Levaram-na a enterrar, numa carretinha que só dois peões acompanhavam, no velho cemitério da estância, a duas quadras das casas. A ele, levaram para a estância, de que o pai fora posteiro, e começou seu martírio. Todos tratavam-lhe mal. Dois filhos do estancieiro davam-lhe relhaços por brinquedo e o restante da família enxotava-o como um cão; era o meio de se pagarem da doce piedade de o terem recolhido. A cozinha era um quilombo terrível, onde inúmeros perigos o ameaçavam, desde os berros das crioulas até os respingos de água quente, as brasas rolando pelo chão, os cepos preparados para caneladas. Por isso sempre se refugiava num canto, como agora, junto à janela, para escapar à sanha das criadas, enquanto esperava o jantar. Naquela noite, uma sombra mais forte toldava-lhe o semblante triste de criança abandonada. Também os arrepios que lhe sacudiam o corpo não eram somente de frio, mas de febre. Já havia dias que adoecera e, sem cuidados, tinha piorado. O rosto emaciado tinha duas rodas rubras nas faces e os arrepios faziam-lhe bater o queixo de vez em quando. Mal tocou na comida. Sem que alguém reparasse nele, foi para o quarto escuro, pegado à cozinha, onde dormia. Deitou-se na enxerga e puxou o farrapo de poncho, que lhe servia de coberta. Caiu logo em torpor. Batia o queixo, as têmporas latejavam-lhe. Depois dormiu, um sono agitado. E viu-se debaixo do umbu da mangueira. A peonada falava e corria numa grande agitação. Percebeu que era a "guerra". Do lado do passo veio um grupo de ginetes, com fitas no chapéu, reboleando espadas e lanças. Assaltavam a estância. Mas a velha Claudina saiu do galpão com uma acha de lenha e desbaratou os atacantes. Pouco depois, todos eles comiam mogango com leite na cozinha, servidos pela velha Claudina. O guri, então, montou o azulego do patrão e ia sair para procurar o pai. Mas o umbu tinha caído, e o cavalo, enredado naquela galharia enorme, dava corcovos que quase o derrubavam. Saltava sobre os ramos entrelaçados, mas outros surgiam, mais altos, amontoados: galopava sobre a fronde de um mato. Os homens do assalto montaram também os cavalos e sairam em sua perseguição, dando-lhe tiros. Um chegou tão perto que levantou a espada para matá-lo... Nisto acordou, opresso, banhado em suor. Ficou alguns momentos desorientado, na escuridão do quarto. Depois meteu a mão sob o travesseiro e tirou um embrulhozinho, que desfez. Era um naco de fumo, um toquinho de vela e uma caixinha de fósforos. Era a sua esperança maior, sua salvação. Quanto custara conseguir tudo aquilo, quantos dias de espera... O naco de fumo, o achara no galpão, caído do bolso de algum peão; o bico de vela e a caixa de fósforos, com dois pauzinhos apenas, surrupiara da cozinha, após inúmeras tentativas perigosíssimas. Ia, enfim, realizar o seu sonho, fazer uma promessa ao negrinho do pastoreio. Ouvira contar a sua triste história e a lenda de seus milagres. Atirado dentro de um formigueiro, por ter perdido a tropilha de tordilhos, o negrinho fica sendo o achador de tudo que se perde no campo. Cavalos extraviados, facas caídas do cinto, bombas de rédeas, dinheiro, tudo ele fazia voltar ao dono que lhe pedisse. Só por um biquinho de vela e um naco de fumo. A vela, para sua madrinha, que é Nossa Senhora, e o fumo para ele, que é pitador. O guri puzera atenção nas histórias e juntara aquelas coisas para pedir ao negrinho do pastoreio que achasse o pai, perdido na revolução. Naquela noite tão fria, apesar de doente, ia acender a velinha, no canto da mangueira. Mal tinha forças, porém, para erguer-se da cama. Nem prestou atenção se todos se haviam se deitado na casa. A sua cabeça andava a roda, com uma zoada dentro; tinha a boca seca e amarga. Levantou-se a custo, todo arrepiado, e tateando no escuro atravessou o quarto, a cozinha, tirou a tranca da porta e saiu à rua. O frio intenso quase o congelava, mas, excitado, meio em delírio, avançava sempre. Uma densa névoa caíra de noite e não enxergava um metro adiante. Foi caminhando, vagarosamente. Deu volta à casa e encontrou a mangueira. Ajoelhou-se junto à cerca e, com todo o cuidado de que era capaz a sua cabeça azoinada pela febre, acendeu o biquinho de vela, protegendo-o com umas ervas. Junto ao biquinho depôs o naco de fumo. Depois, em voz baixa, disse as palavras necessárias: - Negrinho do Pastoreio, acha o papai que se perdeu na revolução. Dou este biquinho de vela p'ra tua madrinha, Nossa Senhora, e este fumo pra ti pitares. Ficou algum tempo parado, tonto, sem saber mais o que fizesse. Começava a encarangar. A luzinha da vela palpitava na neblina densa. Ele sentia agora um frio e um calor estranhos arrepiarem-lhe o corpo. E se fosse até o cemitério, ver a sepultura da mamãe? Saiu tropeçando na escuridão. O frio aumentava. Sentia as mãos endurecidas, a boca cerrada, os cabelos umedecidos pela neblina. Não atinou, naquela noite feia, com o rumo do cemitério. Estava tonto e sentia um frio horrível. Deu volta. Viu à distância o limbo de luz que o biquinho de vela fazia no costado da mangueira. E veio caminhando, com um torpor, um peso enorme no corpo. Ao chegar perto, sentia tanto frio e tanto sono que teve de deitar-se, mesmo sobre o capim úmido. E ia dormir, quando uma coisa extraordinária o atraiu. A luz do biquinho de vela cresceu de repente, alargou-se, subiu, mais clara, de uma claridade lindíssima. Cresceu tanto, que ele avistou as casas e as árvores. Depois a luz cresceu mais ainda, para o alto, num imenso clarão, rasgando as nuvens amontoadas ao lado da faixa de luz que ia até o céu. E apareceu, desenrolando-se do alto, como um pano, uma longa estrada, marginada por árvores muito verdes, onde voavam pássaros. Vinham galopando por ela três cavaleiros. O da frente, num cavalo tordilho, era um negrinho bem pretinho, de grandes olhos alegres e dentes muito brancos, brilhando na luz. E vinha gritando: - Vicentinho! Vicentinho! Olha aqui! ... E mostrava os dois cavaleiros, que eram o pai e a mãe do guri. O pai apeou-se, abraçou-o, e, levantando-o nos braços, sentou-o no colo de sua mãe. O negrinho do pastoreio, que parecia ter pressa, guasqueou o tordilho, gritando alegremente: - Vamos embora, vamos embora! E todos galoparam, dentro da luz maravilhosa, naquela estrada tão linda, que ia muito longe, muito longe ... até o céu! (Darcy Azambuja)

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20/08/2013 11:40:04 Waldomiro Aransegui Filho - Florianópolis / SC - Brasil
Linda história! Maravilhosa harmonia de palavras. Perdoem minha ignorância por desconhecer o autor, mas gostaria muito de ter acesso a outros textos dele.
Sítio: kako-aransegui.blogspot.com.br/
Listado 1 Comentário!
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26/10/2014 23:23:35 ELEIÇÃO É VOTAR NOS HONESTOS CANDIDATOS DO PODER ECONÔMICO!
04/10/2014 07:26:50 NA DOUTRINA MATERIALISTA NÃO HÁ CULTURA NATIVISTA!
13/07/2014 18:04:04 FORRANDO O PONCHO, COM O CABRESTEIO DOS NÉSCIOS!
13/06/2014 07:00:29 TRAMPA NA PENCA FALSA E NAS PELADAS DE CALÇA!
03/06/2014 19:59:22 NUM CUSCO HÁ UM AMIGO; NESSA MATILHA, UM CASTIGO!
13/05/2014 19:17:43 TODO DIA É DIA DE MEIO AMBIENTE: AGREDIDO, HOSTILIZADO!
28/04/2014 09:13:21 CONSCIENTES E NÃO CONSCIENTES: TODOS SOMOS IRMÃOS!
24/03/2014 15:11:18 NA BOCA DE QUEM NÃO PRESTA QUEM É BOM NÃO VALE NADA!

09/05/2014 12:09:37 COM IMPORTAÇÕES E MODISMO NÃO HÁ TRADIÇÃO NEM TRADICIONALISMO!
31/03/2014 10:30:46 CONHECIMENTO, CONSCIÊNCIA, TRADIÇÃO!
31/12/2013 19:43:18 UMA FELIZ FESTA GAUCHESCA DE PASSAGEM DE ANO A TODOS!
02/08/2013 10:41:01 A PILCHA TRADICIONAL DOS GAÚCHOS BRASILEIROS!
10/07/2013 10:18:59 21ª EXPOTCHÊ: BRASÍLIA MAIS TCHÊ DO QUE NUNCA!
18/04/2013 21:01:08 TRADIÇÃO É PATRIMÔNIO ANTIGO, PRESERVADO E RETRANSMITIDO!
10/04/2013 10:37:06 UMA FESTA CAMPEIRA DA TRADIÇÃO DO RIO GRANDE?
15/03/2013 09:02:03 TRADIÇÃO É PATRIMÔNIO ANTIGO, NÃO ESSA HODIERNA E COMERCIAL EXPLORAÇÃO!
 

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